Estratégias para a sustentabilidade no século 21 – parte 1
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Hazel Henderson
Nós, humanos, somamos mais de 6 bilhões de indivíduos. Somos, sem nenhuma dúvida, a espécie biologicamente mais bem-sucedida do planeta Terra. Evoluímos, desde a nossa origem no continente africano, para colonizar todas as regiões do planeta. Nessa trajetória, consumimos 40% de toda a sua produção fotossintetizante, levando outras espécies à extinção em massa. Conquistamos os oceanos, a Lua e o espaço e agora estamos de olho em Marte.
Para dar continuidade a esse espetacular sucesso tecnológico e preservar as alternativas para a sobrevivência de nossos descendentes, precisamos agora fazer uma auto-crítica corajosa para diagnosticar nossas principais falhas: a fragmentação do conhecimento humano, a persistência de conflitos violentos, guerras e pobreza. As Metas de Desenvolvimento do Milênio, das Organização das Nações Unidas, oferecem-nos uma agenda inicial. Se atendermos a essas demandas e também tratarmos de substituir combustível fóssil por recursos renováveis e sustentáveis, poderemos oferecer emprego para todos homens e mulheres dispostos a trabalhar e expandir a prosperidade global. |
Reintegrar o conhecimento humano, repensar sistemas e abordagens multidisciplinares em decisões públicas e privadas são necessidades amplamente reconhecidas, que devem pautar nossa conduta nesse novo século.
A releitura do trabalho de Charles Darwin e as novas evidências trazidas por historiadores, arqueólogos e antropólogos apontam claramente para a evolução da capacidade humana para o compromisso, a cooperação e o altruísmo (www.thedarwinproject.com). Competição, territorialismo e tribalismo, enraizados em nosso medo ancestral, serviram bem à humanidade no início da História, quando éramos mais vulneráveis. Também foram de grande valia o espírito de cooperação, a habilidade de confiar e criar vínculos uns com os outros, já que todos somos influenciados pelo hormônio oxitocina. Níveis mais altos desse hormônio durante a gestação e lactação vinculam as mulheres a seus filhos, ligação que se estende por todo o longo período de desenvolvimento até a maturidade.
Hoje, pesquisas realizadas por cientistas de várias áreas do conhecimento, como neurociências, endocrinologia, psicologia, física, termodinânica, matemática e antropologia, invalidaram os conceitos básicos que sustentam os modelos econômicos e inspiram a maioria das decisões públicas ou privadas, tomadas pela maioria dos países e agências multilaterais, como o Banco Mundial, o FMI e a Organização Mundial do Comércio. A nova pesquisa revela que a economia é uma profissão e não uma ciência. Ainda hoje, quando a privatização e a evolução tecnológica aceleram mudanças e a globalização, os economistas e seus modelos de equilíbrio estão à frente desses processos. Se a competição foi uma peça-chave na evolução dos seres humanos, a cooperação e processos co-evolutivos foram igualmente importantes. As ciências sociais já estudam o comportamento humano como um todo, com exceção da economia, que entende a competição e o interesse pessoal como aspectos intrínsecos da natureza humana.
Estudos de economia política, como foram originalmente chamados, tornaram-se proeminentes após a publicação, em 1776, do grande trabalho de Adam Smith, “A riqueza das nações”. Utilizando-se do conhecimento científico da época, Smith formulou sua famosa teoria da “mão invisível”, que conduzia a competição entre interesses individuais nas ações de interesse público e no crescimento da economia. Smith descreveu paralelos entre esse padrão de comportamento humano e as grandes descobertas de Sir Isaac Newton sobre as leis físicas do movimento. Os princípios newtonianos ainda podem ser usados para orientar o pouso de espaçonaves em corpos celestes distantes – o exemplo mais recente é Titã, uma das luas de Saturno.
Economistas dos primórdios da revolução industrial basearam suas teorias não apenas no trabalho de Adam Smith, mas também no Charles Darwin, “A Origem das Espécies” (www.thedarwinproject.com). Eles procuraram, na pesquisa de Darwin sobre a sobrevivência do mais forte e na competição entre espécies, argumentos adicionais para fundamentar a economia clássica do laissez-faire – a idéia de que as sociedades poderiam enriquecer e progredir simplesmente permitindo que a mão invisível do mercado executasse sua magia.
“A Grande Transformação”, de Karl Polanyi, e muitos outros estudos mostraram que a economia de mercado em toda a Grã-Bretanha foi, na verdade, instaurada por atos do Parlamento (Polanyi, 1945). Ainda assim, na estrutura de classes da Grã-Bretanha vitoriana, economistas e elites abraçavam teorias conhecidas como “darwinismo social”: a crença que o laissez-faire e as desigualdades em distribuição de terra, riqueza e salários iriam, de qualquer forma, produzir crescimento econômico que acabaria por beneficiar os menos afortunados.
Os benefícios da competição nas sociedades são amplamente conhecidos. Estimulam a inovação, a eficiência, impulsionam a industrialização e o crescimento econômico. O papel da cooperação nas famílias e na comunidade era inestimável, mas não era recompensado e permaneceu invisível para os modelos econômicos. A cooperação permitiu a ação coletiva, os impostos e a infra-estrutura vital para o comércio.
Charles Darwin também enxergava a capacidade humana de criar vínculos, de cooperar e compartilhar como fatores essenciais ao nosso sucesso evolutivo (Loye, 2000). De que outra maneira poderíamos nós, que passamos 95% de nossa história vivendo em bandos errantes de não mais de 25 pessoas (Tainter, 1988), ter chegado às megacidades com São Paulo, Xangai, Cidade do México ou Jacarta? Essas metrópoles improváveis, assim como as corporações globais, instituições governamentais e mesmo a União Européia, agora expandida e abrigando 25 países anteriormente conflitantes, jamais poderiam ter emergido sem a capacidade humana de criar vínculos, cooperar e compartilhar.
Assim como evoluímos na direção de sociedades complexas, de organizações imensas e de novas tecnologias, temos que reavaliar nossos sistemas de convicções e considerar até que ponto eles ainda podem estar ancorados em estágios primitivos do nosso desenvolvimento. Por que, por exemplo, subestimamos nossa capacidade de criar vínculos e cooperar, ou nossa disposição para o altruísmo, valorizando qualidades aparentemente ainda ligadas aos nossos receios mais antigos, como os jogos de competição e ao territorialismo? Por que nós supervalorizamos e ainda admitimos, pelo menos nos livros básicos de economia e nas escolas de administração, que maximizar o interesse individual na competição com os outros é um comportamento fundamental da natureza humana? Por que os neoconservadores que hoje conduzem as políticas norte-americanas acreditam, como Margaret Thatcher, que o individual tem primazia sobre a comunidade? A sociedade norte-americana já era altamente individualista, quando a senhora Thatcher tentou resgatar o individualismo numa Grã-Bretanha mais socialista. As pesquisas estão agora mostrando que individualismo excessivo é um dogma, enquanto visões sistêmicas, incluindo as de Ken Wilber, Richard Slaughter, Fritjof Capra, Elisabet Sahtouris, Riane Eisler, Jane Jacobs, eu mesma e muitos outros, procuram o equilíbrio levando em conta a sociedade, a cultura e os ecossistemas do planeta.
Por que nossa índole igualitária para criar vínculos, nosso comportamento cooperativo e mesmo o altruísmo não são ensinados nas escolas de administração como a verdadeira fundação de todas as organizações humanas e de nossas conquistas científicas e tecnológicas? Na verdade, como todo executivo de negócios sabe, competição e territorialismo encontram-se dentro de estruturas de cooperação e em redes de acordos, contratos, leis e regimes regulatórios internacionais como os que permitem a existência de linhas aéreas, navegação, comunicação e outras infra-estruturas, a fazer pouco caso das finanças e do comércio globais.
Essa realidade é agora conhecida como “coopetição” (coopetition= competition + cooperation) (Brandenburger e Nalebuff, 1996), mas não suplantou o modelo de competição na teoria econômica (Axelrod, 2000; Henderson, 1996; Moore, 1996; Wright, 2000). Dessa maneira, a fórmula para o sucesso da humanidade sempre baseou-se na cooperação, ainda que envolvesse competição e criatividade. Apesar dessas evidências marcantes, esses mesmos métodos e currículos ainda são seguidos na maioria das escolas de administração e encorajam gerentes a adotar comportamentos como os que produziram a onda de escândalos e crimes corporativos na Enron, Worldcom, Parmalat, Tyco e Arthur Andersen (Goshal, 2005). Na academia, esse debate pode ser acompanhado por meio de publicações do Sweden´s Dag Hammarskjold Foundation (www.dhf.uu.se) e do movimento francês pela “economia pós-autista”, no site www.paccon.net.
O que as concepções profundas e primitivas sobre a primazia da competição têm a ver com a pobreza, os conflitos e as guerras? Todas essas situações estão fundadas em antigos receios humanos de escassez, no medo do ataques de animais selvagens e de outros bandos humanos ameaçadores. Desenraizar esses medos, codificados de maneira profunda em nossos livros políticos e econômicos como “nós x eles”, é a tarefa essencial de nossa geração. Precisamos ir além dessa economia forjada em nosso cérebro pré-reptiliano e incluir a economia de nossos corações e mentes!
Esses antigos receios ainda confornam ciclos contínuos de opressão, pobreza, violência, vingança e terrorismo. De fato, se não desenraizarmos agora os medos antigos, hoje disfuncionais, iremos destruir-nos uns aos outros. Políticos, muito freqüentemente, usam o medo para manipular o consenso. Mas o medo pode ser contra-produtivo. Franklin D. Roosevelt proclamou, durante a Grande Depressão Americana, que não devíamos temer nada, a não ser a nós próprios!
(continua)

Hazel Henderson é economista evolucionária, empreendedora mundialmente reconhecida, consultora em desenvolvimento sustentável e conselheira de organizações governamentais e privadas em vários países. É a idealizadora da plataforma
Mercado Ético.
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