Fontes alternativas de energia
Bush e Lula se encontram: é bom para o Brasil?

O Brasil deverá analisar nos próximos meses proposta de parceria com os Estados Unidos para a produção de etanol em países da América Central e Caribe. A expectativa é que os entendimentos iniciem-se já no próximo dia 9 de março, na visita do presidente George W. Bush ao país, e consolidem-se no final do mesmo mês, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retribuirá a visita do presidente norte-americano. Um eventual acordo entre os dois países somaria a força dos investimentos norte-americanos em pesquisa com a expertise tecnológica que a indústria sucro-alcooleira brasileira acumulou nos últimos anos.

Essa parceria abrirá uma janela de oportunidade para os produtores nacionais, que poderão se inserir no mercado internacional com uma commoditie de alto valor agregado e que ainda apresenta vantagens do ponto de vista ambiental”, avalia Laura Teti, consultora ambiental especializada em energias renováveis.

O Brasil e Estados Unidos respondem juntos por 70% do mercado mundial de etanol. No caso norte-americano, o produto é obtido a partir do milho. Esse mercado representa algo em torno de 2% do consumo global de combustíveis e não tem grandes perspectivas de se ampliar na Europa ou na Japão e, no caso do produto brasileiro, nem nos Estados Unidos, por conta de barreiras protecionistas.

“Não tenhamos a ilusão de ser grandes exportadores”, sublinha Laura Teti. Mas há excelentes perspectivas para a tecnologia brasileira de produção do etanol nos países abaixo da linha do Equador. “África, Ásia e América Latina produzem cana com baixa utilização de tecnologia e têm déficit de energia. Mas, no entanto, se enfrentam numa disputa acirrada no mercado mundial de açúcar que ainda é colonialista”, afirma.

A geografia da cana no hemisfério Sul coincide com a do mercado potencial para o etanol e com a área onde a tecnologia brasileira poderá ser replicada. “O Brasil sabe desenvolver a cultura da cana em bases modernas e nos interessa que esse produto seja uma commoditie internacional, precificada em bolsa e negociada por meio de contratos”, enfatiza. E para isso, o acordo com os Estados Unidos pode ser um jogo de “ganha-ganha.”

Por si só, o mercado brasileiro de etanol já tem boas perspectivas pela frente. “O consumo interno se expande com o carro flex. A expectativa é de um crescimento de 50% até 2010”, observa a consultora. Mas cresce também em função da mistura obrigatória do álcool à gasolina. “Isso é um gargalo. Se o álcool entrar no mercado internacional, romperá com essa dependência da gasolina e levará a um maior equilíbrio de preços internos”, argumenta.

Gargalo maior ainda, ela sublinha, é a ausência de marcos regulatórios. “O álcool representa mais de 40% do combustível consumido no país, mas é regulado pela Agência Nacional de Petróleo”, afirma. Além de regras específicas, o novo mercado vai exigir também a criação de instrumentos para a sua comercialização. “O Brasil atualmente exporta álcool combustível para os Estados Unidos por meio de uma trade agrícola.”

Haverá também necessidade de se criar estoques reguladores e, sobretudo, contratos de entrega. “Os contratos entre empresas serão o embrião dos contratos em Bolsa”, ela prevê.

“Não podemos perder essa oportunidade”, sublinha Laura. Segundo ela, os produtores investiram US$ 40 milhões anuais, nas últimas duas décadas, para obter produtividade nas lavouras que cresce a uma média de 4% ao ano. “O que na Europa seria um grande mercado de álcool, aqui é variação estatística”, compara. Essa produtividade cresce sem a expansão da área plantada. “São Paulo é responsável por 85% da cana-de-açúcar produzida no Brasil e as lavouras representam apenas 14% da área plantada no estado”, ela afirma, descartando a possibilidade de, com a expansão do mercado, o país vir a se transformar num imenso canavial.

Cláudia Izique
editora de Energia do Mercado Ético